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A mão amada

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Sentiu pousar delicadamente a mão em seu ombro esquerdo. E amou-a.
Amou-a tão profundamente como o amante ama a amada, diante da morte certa, na guerra sangrenta.
A mão em seu ombro esquerdo, tão leve, tão delicada, tão gentil, fê-lo sentir-se amado também.
E imaginou destinos idílicos, sensações impensadas até então, beijos longos e deliciosos.
Fria, a mão também - de fato - o amou, naquele instante de poucos segundos.
Como pode amor tão forte nascer de toque tão leve?
"Só pode ser amor de verdade", pensou ele, que não amara nenhuma moça do vilarejo distante, nem da cidade de agora.
Um veleiro no Atlântico, vislumbrava o rapaz, seria testemunha única das paixões desses dois querentes. Ele, o veleiro fino e longo, e o céu azul, por testemunhas. Mais ninguém.
Viveriam de quê? Que importava?, pergunta tola, no real fundada.
Aquele instante era o início de tudo, aquele toque sutil, de amada que acorda o amante no leito nupcial.
Então virou-se. E viu.
A mão da Ceifeira, longa, branca e del…

Ele, o fim

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Noite. O canto ressoa, entre tropeços. Perambula terra a fora, entoando a velha canção: "Marujo bom, marujo ao mar, marujo em terra, em braços de mulher..." Na memória, tempos idos. No coração... que coração? Já não tem mais. Corujas piam e espiam a figura esguia entre névoas. "Skish, skish, skish". Os sapatos velhos duetam com o chão de pedra polida. O branco embaçou o azul dos olhos. Logo não vai mais poder cantar. Não vai mais poder andar. Ele é só um defunto, esquecido. Anda de lado a outro na noite, quando ninguém o vê. Os ossos falam na língua da dor. Lembra-se ainda do velho barco, que espera nalgum porto. Ao longo, janelinhas amarelas, com luzes e calor. Gente cantando. Gente brigando. Gente ignorando. O Sol vai nascer e ele voltará para o túmulo. A garganta ressequida aguarda (em vão!) o rum. O mar foi sua casa, onde queria ter morrido. Morreu em boteco. Foi arrastado pra cova rasa. Acordou um dia, depois do porre, apodrecendo. Faz sua última reza antes de dormir. O dia vai ra…

Sós

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Reprimendas! Dão-nos às mãos cheias!
É isso o que temos todo o tempo.
Não palavras fáceis, de literal gozo.
Mas reprimendas.
Que fazem sentir-nos fracos,
alcoolizados. Químicos.
Reprimendas.
E assim nos sentimos,
vis e humanos.
Sentimo-nos enfim,
sós.

Velho Marujo

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Dentro, bem dentro daquela farda bate um coração apressado.
O pano é bom, mas ordinário. Nada excepcional.
Abotoaduras de plástico, uma condecoração aqui, outra ali. "Por bravura", repete.
Mas o coração queria mesmo era voltar.
Da praia, o mais bonito era o navio de guerra. Da guerra, o mais bonito era a calmaria. Mas agora era apenas um comerciante. Bêbado.
O vento burila uns fios soltos da velha e carcomida farda de guerra, que já viu sangue. "Meu e de outros".
Desce mais rum goela abaixo. Arrota e tropeça nas botas velhas.
No porto, mulher lhe faz gesto e desiste, vendo o desinteresse do velho fardado.
O coração partiu para as bandas de lá. Queria voltar mas nunca chegou ao porto sonhado. Encontrou outro no lugar.
Aquele coração apressado carrega um mar inteiro de angústias, que não cabem mais no porto de agora.
Em terra, o velho marujo é menos homem. No mar era velho lobo combatente útil.
Enfia a mão na algibeira. Caça moeda. Joga pros guris, correm pra um lado, ele claud…

Pequeno coração, amor

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Mataria Ele. Assim que Ele passasse novamente em sua frente.
Não. Dessa vez ela não O perdoaria. Uma cretinice dessas não se perdoa, nem em mil anos, nem em mil corações rasgados.
Posou delicada a mão sobre a coxa. Entre elas um vestido de chita, baratinho baratinho. Sob o sol outonal.
Pensou em tudo o que já havia lido em sua vida. Escândalos. Como se submetiam a Ele? Por que a poesia e a prosa Lhe rendiam tantos tributos?
Estavam certas as tragédias gregas. Os romancezinhos comerciais de hoje mentiam. Desconheciam a realidade. Literatura covarde.
Ela, tão nova!, já conhecia a verdade. "A verdade, viu?!"
Via claramente as coisas agora. E não entendia como acreditara N'Ele. E mais uma vez. E outra. E tantas outras. Mas agora...
Sentiu-se altiva. Dona de si e corajosa. Sacou do bolsinho mais um doce mantendo a concentração inalterada. Heroína de filme, atira pergunta depois. "Pou!". Morto.
Mas Ritinha viu toda sua certeza se esvair quando a adrenalina correu de novo em …

Felizbela

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Felizbela não era feliz. Tampouco bela. Na verdade, era até bem feinha, e possuía uma tristeza verdadeiramente contagiante. Era pequena, tinha olhinhos miúdos que lembravam pequenos grãos de bico. A cabeleira era linda, mas tinha um efeito nocivo: emoldurava tão bem um rosto, mas tão bem, que acabava chamando a atenção de todos para esse rosto. E o rosto que ela emoldurava era feio, tristemente feio. Nas palavras de Feliz, como as amigas a chamavam (a opção era “Bela”, mas a ironia ficaria evidente demais), era o rosto mais feio do mundo. Felizbela era apaixonada por Renatinho, um moço boa praça, conservador. E lindo. O tipo que todo sargento pede como genro. Não era rico, mas tinha “posses”. Ele nunca olhou exatamente para Feliz. Olhava para aquela cabeleira linda, negra como a noite, e sonhava. Mas a vida sempre reserva surpresas, não importa o grau de beleza da pessoa.  E para Feliz, ela reservou Tristão, também muito feio, mas profundamente feliz. (No que diz respeito a nomes predize…

41 trechos da obra "Sobre a Escrita", de Stephen King, que podem fazer toda a diferença para seu texto

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Trago ao intrépido leitor as seleções de trechos que fiz do livro "Sobre a Escrita" - A Arte Em Memórias, de Stephen King. Não é uma seleção dos melhores (ou completos) trechos, mas dos trechos mais importantes (na minha avaliação) para quem quer se aventurar na arte da escrita criativa. São 41 trechos, que reproduzo apressadamente a seguir:
1 - Evite a voz passiva. 2 - Você também deve ter percebido que fica muito mais simples entender o pensamento quando é dividido em dois. Assim fica mais fácil para o leitor, e ele deve ser sua maior preocupação sempre. 3 - Advérbio não é seu amigo. 4 - (...) que você só use advérbios com verbos dicendi na ocasião mais rara e especial de todas... e nem mesmo nessa hora, se puder evitar. 5 - Estou convencido de que o medo é a raiz de toda má escrita. 6 - Em prosa expositiva, os parágrafos podem (e devem) ser organizados e utilitários. O parágrafo expositivo ideal contém uma frase síntese seguida por outras frases que explicam ou ampliam a…